Sonhos

Eles são independentes e poderosos, agem a seu bel-prazer, sem pedir licença. Nascem das profundezas da mente, realizam suas performances e se extinguem. Nada podemos contra os sonhos, a não ser vivê-los passivamente e sofrermos suas consequências.

Um abraço apertado, longo, delicioso. Nossos olhares, nossas palavras, mãos dadas. Um lugar impossível aquele, mas, para aos sonhos, tudo é possível.

Roberto Pellegrino

Finalmente!

Surge a música, a melodia se impõe, emoções se transformam em turbilhão. “Nunca mais”, as palavras ressoam na mente, não sei o que fazer delas. Afasto-as, é inútil, retornam, tenho de aceitá-las. Distancio-me da música, não a ouço mais, volta a calma. Finalmente!

Roberto Pellegrino

Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro

Argumentar com quem não quer argumentar é uma experiência desgastante e infrutífera. A única estratégia eficaz em um caso desses é calar a boca e deixar o outro pensar que estamos lhe dando razão. Que mais pode-se fazer quando nosso interlocutor deixa evidente que o negócio dele é negar o inegável e fazer afirmações estapafúrdias com raciocínios dignos de um muar? Ao silenciarmos, resolvemos o problema sem abalarmos nosso sistema nervoso, e o outro que vá caçar batráquios em um brejo de sua preferência.

Roberto Pellegrino

Sem palavras

Saudade de Pellebertinho, gente…

Só existe um modo de expressarmos o que sentimos: com palavras, faladas ou escritas. Mas elas não conseguem transmitir com exatidão o que vai em nosso íntimo. Sentir é muito mais profundo que dizer, por maior que seja nossa capacidade de comunicar. Palavras são simulacros da verdade, representações aproximadas das emoções, que, inefáveis, escapam a toda tentativa de serem traduzidas.

Roberto Pellegrino

Programa de índio?

Nunca se soube de índio que fosse atrás do trio elétrico no Carnaval de Salvador; ou em festa de aniversário de criança alheia; ou a cerimônia de formatura de filho também alheio; ou a reunião de condomínio. Portanto, existe programa de índio tão programa de índio que índio algum jamais faria. Daí decorre que a expressão “programa de índio” é uma injustiça cometida contra a inteligência e a filosofia de vida dos indígenas brasileiros.

Roberto Pellegrino

Conversar é preciso

Eu adoro me reunir com amigos e conversar. Mas há um problema: não sei se a culpa é minha por estar ficando intolerante, ou se é dos outros, que não sabem conversar. Numa conversação, é de suma importância saber ouvir. Só que saber ouvir é uma raridade entre as pessoas, interessadas que estão em falar, falar, falar.
Há os que “sabem tudo sobre tudo” e os que externam suas férreas convicções menosprezando de antemão quaisquer opiniões ou argumentos contrários. Confesso que não consigo nem me interessa conversar com esses indivíduos.
Há os que só tem um interesse: política. Fujo deles. E há os que adoram polemizar, uns chatos. E também os que se consideram o centro do Universo: só falam neles mesmos, de seus problemas, de suas famílias etc
Há os que falam muito alto e os que falam baixo demais; os que adoram contar “causos” geralmente desinteressantes e longos.
Enfim, talvez eu esteja mesmo ficando intolerante com as pessoas, mas está se tornando cada vez mais difícil acontecer um bate-papo que valha a pena.

Roberto Pellegrino

Conto relâmpago de traição e sangue

O amor deriva da cumplicidade e dela se alimenta. Mesmo que, na vida de um casal, aconteçam ocasionais traições, a conexão entre dois seres cúmplices em seus sentimentos e aspirações supera esses acidentes de percurso.

Ele fechou o livro. Tivesse lido essas palavras antes… antes de…, pensou, amargurado. Agora não estaria trancafiado numa cela, onde permaneceria ainda por muitos anos.

Roberto Pellegrino

A siciliana

Francesca era beddra assai, que no dialeto siciliano quer dizer muito bonita. Tinha, porém, um defeito: não me dava bola. Por quê? Sabe-se lá, são os insondáveis mistérios da vida.  Eu tinha tudo para atraí-la, tudo e mais um pouco, mas Francesca não me notava, ou melhor, me notava demonstrando enfado. Aquela atitude dela a meu respeito foi transformando minha admiração em raiva e, com o passar do tempo, em ódio. E foi esse ódio que me levou a cometer um desatino: matei Francesca com um tiro de revólver no meio da testa. O estampido do tiro me despertou e eu acordei no meio da noite sobressaltado, o coração em disparada.

Quando, na manhã seguinte, a encontrei no saguão do prédio onde morávamos, dirigi-lhe um olhar e um sorriso ambos de deboche. E pensei: Francesca, você é beddra assai, mas eu decido se merece ou não viver. E seu enfado a meu respeito não me incomodou mais.

 Roberto Pellegrino

O senhor do tempo

Ele pensava numa coisa um tanto maluca. Achava que poderia ter dilatado o tempo de seus momentos felizes no passado. De que jeito? Aí é que está a maluquice. Considerava que se tivesse vivido aqueles momentos mais lentamente, eles teriam durado mais. Como assim mais lentamente? Se agisse e falasse devagar, o tempo custaria para passar, resultando numa felicidade mais duradoura. Mas o mundo a sua volta iria se portar na mesma velocidade que se portou, apesar do comportamento dele, o que teria inviabilizado sua tentativa. Também acho, porém ele supõe que suas atitudes teriam influenciado todos e tudo que o cercavam, freando assim a velocidade do tempo, pelo menos em sua mente.

Roberto Pellegrino