Cara ou coroa

Bem que ele queria, mas não podia. Então pensou no que podia e se deu conta de que não queria. Resumindo: queria o que não podia e podia o que não queria. Bela enrascada, pensou, sinuca de bico. O que fazer diante desse impasse? Passar a querer o que não queria seria uma boa solução, porém não estava a fim de subverter seu gosto e vontade. Considerou a opção de não mais querer o que não podia, só que o desejo do impossível é mais forte que qualquer vontade consciente. Só lhe restava apelar para a moeda, isso mesmo, cara ou coroa. Assim fez. Jogou a moeda para o alto e, quando ela caiu ao chão, ele viu que tinha dado coroa. Conformado com a sentença do acaso, foi dormir. E sonhou que tinha dado cara. Acordou sobressaltado e lamentou que o destino lhe tivesse oferecido a coroa.

Roberto Pellegrino

Megacena

O que faria se ganhasse na Mega-Sena, pensava enquanto caminhava na rua. Sozinho caminhava e sozinho se ganhasse, sem dividir o prêmio com ninguém, imaginava, já que, se era para fantasiar, por que não fantasiar o máximo? Em sua fantasia criava situações excitantes, e foi se envolvendo emocionalmente nelas até um ponto que considerou exagerado, inconveniente até. Então voltou a si e à realidade, esta prosaica, insossa como insosso era seu dia a dia, e o da esmagadora maioria das pessoas que via na rua, com certeza, concluiu. Dirigiu-se à loteca mais próxima, levado por suas pernas, não pela mente, onde fez uma aposta com números escolhidos aleatoriamente. A partir daí poderia sonhar com uma base concreta, embora soubesse que suas chances de ganhar fossem mais que diminutas, infinitesimais, porém não eram nulas, zero, como seriam se não tivesse jogado. E, de novo na rua, pôs-se a fantasiar, outra vez, agora com mais afinco e uma pitada de esperança.

***

Ganhei na Mega-Sena, sozinho, choveu tanto na minha horta que ficou toda alagada, uma lagoa, uma dinheirama, enriqueci de repente, milionário mesmo, inacreditável, mas é verdade. Ou não? E se for mentira, um sonho que estou tendo? Pronto, acordei, era sonho e acabou, estou em minha cama, cadê aquela bufunfa toda? Escafedeu-se, evaporou. Tudo voltou ao normal, à rotina de todos os dias, menos à de sábado, domingo e feriado, que é diferente.

Roberto Pellegrino

Quão duro é o não (padre Vieira)

Ele disse “não”, e por isso foi em parte louvado e em parte hostilizado.

“Não, chega, assim não dá mais”, palavras corajosas e duras de quem sabe o que está falando.

Dizer “sim” é fácil, cômodo, não comporta riscos nem inimizades. Ao contrário, dizer “não” requer coragem, determinação e consciência das consequências acarretadas.

Ele disse “não” e se sentiu em paz consigo mesmo como nunca antes se sentira.

A quem ele disse “não”? Aos que se creem donos da verdade e superiores; aos chatos, numerosíssima categoria de seres humanos; aos que só falam e se recusam a ouvir.

E continua dizendo “não” sobretudo a si mesmo, quando pensa nos erros que cometeu.

O poder do amor

Era a tarde do dia anterior ao de seu casamento. Ela estava extremamente nervosa, fora de si, em vias de cometer uma idiotice qualquer. E cometeu. Por sorte, encontrou, nas pessoas por ela visadas, um anteparo que não permitiu que seu desequilíbrio emocional causasse um desastre. Esse anteparo foi o amor, o qual, como disse Dante Alighieri:

MUOVE IL SOLE E L’ALTRE STELLE.

As lembranças são eternas

Seu relógio caiu no mar; ele ficou triste. E agora, como medir o tempo? O mar é ladrão, rouba tudo, menos as lembranças. Com estas o mar não pode, por mais que se empenhe, por mais que ruja, por mais que, com seu cúmplice vento, mobilize as ondas para a destruição. Ele se acalmou, consciente de que afrontaria o mar mesmo sem relógio, pois não precisaria medir o tempo, já que o tempo não significa nada para as lembranças, que são eternas.

Hologramas

Nel mezzo del camin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura,

che la diritta via era smarrita.

–Dante Alighieri, La Divina Commedia

Uma mulher virtual, bonita, esbelta, inteligente, culta, simpática que vez por outra surge a minha frente em forma de holograma. Falamos disso e daquilo, do passado, do presente, do futuro, rimos.

Talvez eu também seja um ser virtual. Dois hologramas se comunicando? Talvez.

Quem tem razão?

Todos têm razão: os cultos e os ignorantes, os inteligentes e os asnos, os bonitos e os feios, os altos e os baixos, os gordos e os magros, os ricos e os pobres, os loucos e os normais. Mas não os que não cheiram nem fedem, os que seguem estritamente as regras a qualquer custo. Estes estão sempre errados por mais razão que tenham.

Microcontos

O BEIJO

Um reencontro estranho no começo, com ambos hesitantes. Até que, quebrado o gelo, abraçaram-se e beijaram-se. Em princípio tímido, o beijo foi aumentando de intensidade, rompendo as barreiras erguidas ao longo do tempo de separação. Mas a eles ainda sobrava a consciência de que precisavam readquirir o domínio de suas ações. E foi o que fizeram, embora soubessem que mais tarde lamentariam terem obedecido, à voz da razão.

O PARQUE

Como fazia quase todos os dias, ele foi caminhar no parque próximo a sua casa. O lugar estava vazio àquela hora da manhã. Enquanto caminhava, seus pensamentos o levavam para longe dali. Distraído, mal ouviu um estampido nem teve tempo de se conscientizar de que nunca mais caminharia no parque próximo a sua casa.

Palavras, palabras, words, paroles, parole

Sinto-me cercado por palavras esparsas, muitas delas, que procuro ordenar em orações, para dar-lhes um nexo, uma coerência narrativa. Nem sempre consigo, é tarefa difícil, pois me falta engenho e arte para tanto. Mas continuo insistindo e às vezes me satisfaço com o resultado, embora essa satisfação não seja nada mais que uma condescendência comigo mesmo.

Espero que algum dia, ao me cercarem, as palavras já estejam ordenadas em frases e orações para, desse modo, facilitar-me a consecução de textos que mereçam o apreço não apenas de minha parte.