Instantes

Sempre acreditei no locutor de voz grave que dizia: “Cada minuto é um milagre que não se repete.” Ou não seria esta foto o registro de um desses instantes raros de prazer, envolvimento e sintonia, da planta do pés à do chá?

(Martine Franck, fotógrafa inspiradíssima, paixão de Cartier-Bresson, e o amigo Richard Kalvar, outro mago das lentes.)

Segue o garimpo

Neuvième extrait de son album, Mademoizelle Fizz, chanteuse de Jazz de Québec/Canada, chante ‘Tu sais je vais t’aimer’,  écrit et composé par Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim et Georges Moustaki (version française).

J’ai bien aimé. Et vous, mes enfants?

‘Vocês querem bacalhau?’ (Chacrinha, o visionário)

Carlos Prazeres, 41 anos, carioca, em Salvador desde 2011, quando assumiu a regência da Orquestra Sinfônica da Bahia, conta que passou “a se conectar mais fortemente com a sociedade” ao realizar concertos com marchinhas de carnaval e músicas de cinema. Num desses eventos, chegou a sugerir que os músicos se fantasiassem de personagens famosos – ele foi de Clark Kent -, e quando os trompetes atacaram o tema do filme, ele tirou o paletó, jogou os óculos para o público e regeu com a blusa da fantasia.

Conclui sua entrevista a O Globo afirmando que, “se apenas 5% da plateia têm acesso completo e relação mais sentimental com obras clássicas, para que fazer um concerto tradicional, onde fingimos que a plateia entende, e a plateia finge que nós acreditamos que ela entende, e tudo não passa de um jogo de fingimento?”.

Se bem captei, definitivamente o Brasil fez uma opção pela mediocridade, fruto de um populismo pernicioso e sem volta. Não seria melhor, ao invés do circo, aprimorar o pão, cuidar da Educação e da Cultura Musical, nas escolas, desde a mais tenra idade?

Rio de Sempre

Rio de Sempre e o Ferreirinha

Quando ainda criança, começando nas letras, sentado na varanda com meu avô, ouvia atentamente histórias que selecionava de uma Revista muito conhecida na época, Seleções Reader’s Digest, e uma das suas seções, a preferida de meu avô, era o “Meu tipo inesquecível”. Vovô gostava muito e eu também. E ontem, quando conversava com um velho amigo, vejo o Ferreirinha. Uma pessoa inesquecível.

– Serginho, sabe de uma coisa? Toda vez que vejo o Ferreirinha acho que viver vale a pena.

– Paulinho, semana passada fez noventinha, 9 ponto 0. Aconteceu uma festa surpresa.

– Como você soube? Teve uma festa surpresa para quem lembrou? Não entendi! Só convidaram  quem telefonou ou mandou e-mail?

– Nada disso. Você conhece o Ferreirinha. Deixou um aviso lá no Bar dos Amigos, no Horto.

“Amigos, ao lerem este aviso, lembrem: no dia 8 de abril faço 90 anos e vou comemorar aqui. Ferreirinha ”

O bar encheu. Até quem não conhecia apareceu. Duas moças levaram bolo. Uma outra, um tremendo prato de brigadeiro, e ainda pintou uma bandeja de casadinho. Foi o maior sucesso. O legal é que dos doces, ele só comeu o bolo, assim mesmo um deles. Do outro pulou fora. Fiquei sabendo que a moça é meio ligada a essas cartomantes de poste e poderia estar fazendo algum trabalho. “O casadinho, então, nem pensar, podiam entender errado”, comentou comigo no dia seguinte. Um detalhe, bebeu muito.

Ferreirinha sempre bebeu. Com moderação, mas constante. Faz tempo, bebemos junto aqui no Jóia. Estava com problemas existenciais. Enquanto eu tomava meu traçado, ele foi de batida de limão com gotas de Steinhager. O pior é que fiquei freguês dessa mistura.

– É uma peça. Só o chamo de Orfeu. Um cara que veio ao mundo para nos dar luz e cura.

– Luz e cura?

– É a etimologia de Orfeu. Aquele que veio curar pela luz. E só olhar e ver seu brilho e disponibilidade para com o outro.

– Por isso chega assim aos 90. A única coisa que o diferencia de Orfeu é que nunca encontrou sua Eurídice.

– Pode não ter encontrado, mas está sempre acompanhado e bem. Tem um tremendo borogodó.

– Engraçado, não tem o perfil de boêmio. É verdade que nunca gostou de trabalhar. Foi engenheiro da prefeitura e descobriu que contestando o chefe ia ser colocado de lado. E assim fez. Os chefes não gostam de contestadores. Assinava o ponto e se mandava para casa. Entrou para a Prefeitura por concurso. Nunca ia ser demitido. Uma vez, pintou um chefe que conhecia suas histórias, e logo o foi promovendo. Não queria confusão. É meu eleitor no Clube de Engenharia e me garante meia dúzia de votos.

– Escrever, ler,  ouvir suas músicas e conversar é seu barato. Tem uma coleção de jazz de fazer inveja, reconhecida até no exterior, o que  já lhe rendeu comentário em uma revista novaiorquina especializada.

Não me diga. Nunca comentou isso com ninguém. Seu  grande barato é ser do tipo moita. Quando alguém descobre algo dele, se abre, explica tudo. Mas falar de si espontaneamente, nem pensar. É um colecionador: selos, cachaças e uísque.

– Estou aqui pensando: esse perfil ‘moita’ não é muito comum entre os cariocas e ele é um carioca. Ele convive com tudo que a cidade oferece: chorinho, samba, praia, cerveja, mulher, esquina, sandália de dedo, jogar conversa fora. É eclético, nunca vi o Ferreirinha de meia. Cara, me lembro dele no Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura. Fui assistir a uma peça chamada “A mais-valia vai acabar, seu Edgar”, do Vianinha. Era o bilheteiro e, no meio da peça, ele me aparece vestido de mosqueteiro, falando aos berros: “Sou o Mosqueteiro do Rei!” E nada mais.

– Estamos aqui falando do Ferreirinha e fico lembrando das poucas vezes que estive com ele. Um síndico aqui perto resolveu fazer um churrasco para ver se ganhava votos no condomínio. Tomou conta da festa. Levou uma garrafa de Havana, a cachaça mais cara que conhecemos, e não ficou por aí, contou uma história da cachaça. “Nos anos da ditadura, um major foi no alambique e mandou o dono mudar o nome da cachaça. Não deu certo, o cara preferiu parar com a fabricação a mudar o nome. Um dia, o general mandou o seu ordenança comprar uma Havana no alambique e soube da notícia. Estava fechado. O general ficou bravo. Mudou o major de região militar e a cachaça voltou a circular”. Essas e outras histórias fazem parte de seu arsenal de causos. É um contador de história. Alguém tinha de recolher essas histórias do Ferreirinha e colocar num livro…

– Você já viu o Ferreirinha na feira? Fica atrás da barraca de vender frango com sua galera. Fazem um churrasquinho de asa de frango e rola a maior cervejada. De vez em quando dou uma passada lá. Minha mulher não gosta muito. Acabo comprando de mais ou de menos.

–  Você acha que se uma Eurídice pintasse na sua vida, seria o mesmo?

– Cara, quando a Belquize morreu, percebi uma certa tristeza no seu semblante. Você sabe como foi o luto?

– Não faço a menor ideia.

– Colocou um mastro na sua janela e pendurou sua cueca a “meio mastro”.

– Desse jeito passa dos 100.

Rio de Sempre presta carinhosa homenagem a um morador do nosso Jardim Botânico. Um Orfeu que viaja dentro da sua solidão. Uma pessoa inesquecível. Colecionador de amigos.

Paulinho Lima