De desapegos

O lirismo de Carpinejar até na separação (et pour cause)… 
O consagrado poeta pai, Carlos, não escreveria mais lindamente.

oOo

Arte de Paul Klee

POR QUE NÃO POSSO LHE ESQUECER?

Nenhuma perda é rasa para mim. Todas são profundas. A lembrança da antiga companhia leva, inclusive, o meu modo de olhar. Meu modo poético de olhar o mundo.

Esquecer é uma crueldade que sou inapto para praticar. Absolutamente incompetente.

Não sei me despedir, não sei me desapegar.

Há mentalidades diferentes – e apenas diferentes, nem melhores, nem piores -, unidimensionais no relacionamento, em que um vaso é um vaso, uma vassoura é uma vassoura, objetos geram funções e não significados emocionais.

Estes perfis pouco sentimentais e práticos se separam fácil. Não sofrem com a linguagem criada no amor, não adoecem no dialeto. Felicidade é estar rindo, tristeza é estar chorando, sono é bocejar, raiva é gritar. E se separar é apenas não dar certo.

Não corresponde ao meu exemplo. A simplicidade é reverência. Sofro com o que vi em segredo, com o que memorizei sem nenhum sentido a não ser o de amar alguém.

Potencializo a observação como forma de conhecer o outro. Minha memória é feita toda de saudade. A falta vem de uma realidade microscópica e lírica guardada nos hábitos. Minha memória está repleta de símbolos criados ao longo da convivência. Dentro da felicidade, da tristeza, do sono e da raiva, existem ninharias importantíssimas, que não me deixam ir embora.

Os sentimentos não expressam conceitos que servem para qualquer história. Terminam particularizados ao máximo para tornar aquela história única e irreversível.

Não observarei mais um pão francês impunemente, pois ela tirava o miolo antes de comer. Não sentarei no banco preto da cozinha do mesmo jeito, mirante onde se debruçava para ouvir música e fumar perto da janela. Os chinelos não são mais chinelos, mas um encosto para a porta não bater com o vento. A carteira não é o lugar em que guardo cartões e dinheiro, mas onde conservo o nosso primeiro ingresso de cinema. Arrumar a cama é lembrar que ela não gostava de ficar com os pés sufocados, é nunca mais prender o lençol no colchão. Pegar uma escova é segurar o ensinamento entre os dedos de que uma mulher prefere o carinho na nuca do que na raiz dos cabelos.

Eu me doutorei numa pessoa. Eu me diplomei na coreografia mínima de minha amada. Durante anos, o que fiz foi estudá-la. Eu me especializei, ironicamente, em quem não está mais comigo.

Onde pôr a herança? Não há como aproveitar a escolaridade ou realizar equivalência de cadeiras com uma nova paixão.

Não tem como apagar o conhecimento com a distância repentina. Ela já é parte de mim. Ela já se misturou ao meu temperamento.

A poesia é um problema para quem se afasta daquela que ama.

Glorifiquei informações inúteis, consagrei conhecimentos irrelevantes. Tudo era essencial para desfrutar com ênfase de sua presença.

Decorava seus gestos, mesmo não sendo necessário.

Se não ponho nada fora, não é porque não quero, é porque não posso. Teria que me arrancar os olhos.

 Fabrício Carpinejar, em 23/4/15

Possível trilha, Carpinejar?

Roberto Menescal: “Minha Menina do Rio é Nara Leão”

Do simpático blog da Anna Ramalho:

 

Tanta coisa pra lembrar de Roberto Menescal… Logo de cara a academia onde ele dava aulas de violão pra faturar algum, muito mocinho ainda, e que ficava numa vila na Rua Dias da Rocha, em Copacabana, quase ao lado do prédio onde eu morava. Naquela época, ainda uma garota, nem sabia dele e de Wanda Sá e de Carlinhos Lyra, que também davam aulas ali. Só mais tarde fui ligar os fatos. Era a vila da Lidinha, até então a mais famosa de toda a história. Roberto Menescal, autor de tantas e tão belas canções, muitas delas com letra deRonaldo Bôscoli, começou fazendo história com O Barquinho e seu “dia de luz, festa do sol” que até hoje faz o maior sucesso. Pergunta pra qualquer japonês antenado. No Japão, Menescal manda. Ele, Wanda Sá, Joyce estão sempre na terra do sol nascente mostrando a nossa música, a nossa bossa nova que fez História. Durante muitos anos produtor musical da Polygram, ele deixou cargo logo que soube da irreversível doença de sua grande amiga Nara Leão, apenas para acompanhá-la em turnês mundo afora. Voltou a ser apenas músico por causa de Nara. Músico e cultivador de bromélias em sua casa na Barra. É um ser muito especial esse Roberto Menescal. Vamos conferir o seu Rio.

A cara do Rio
Bossa Nova

A imagem do Rio
Corcovado

O que me faz falta no Rio
Mais amor e mais educação

Rio antigo
O Arpoador dos anos 60

Rio de hoje
Prainha

Rio do futuro
?

Não podia ter acabado
O Canecão

Tem que ter
Alegria e gentileza

A comida do Rio
Feijoada

A bebida do Rio
Caipirinha

O seu restaurante no Rio
O Quinta, em Vargem Grande

O seu bar no Rio
Na minha casa com meus amigos

E quando chove no Rio?
É a glória para a floresta que emoldura o Rio

A música do Rio
Garota de Ipanema

Escola de samba
Carnaval? Tô fora!

Time de futebol
Apesar de tudo, Flamengo

Menino do Rio
Arduino Colassanti

Menina do Rio
Nara Leão

Um (a) carioca que deixou saudade
Sem dúvidas, Tom Jobim

Dia HH

Em 21 de abril de 1930 nascia Hilda Hilst. Poetíssima Hilda.

“e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida.”

“Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de poeta.”

AMAVISSE

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst
(1930-2004)

Almost

Os versos – amo! – de Didn’t we e a própria história de vida de Jimmy Webb quase o tornam um Senhor Quase…

This time we almost made our poem rhyme, didn’t we girl?
This time we almost made that long hard climb…

Gama, olhe o que nos envia mestre Romane!!! Tema: Almost.

O Senhor Quase

Tenho conhecido muitos Senhores Quase.

O Senhor Quase está em todas as profissões e em todos os lugares. Ou quase.

São essas pessoas que quase escalaram o Everest, quase ganharam o campeonato mundial de bocha, quase atravessaram a nado o Canal da Mancha, quase pescaram um peixe de duzentos quilos, quase se formaram em Medicina, quase se tornaram sacerdotes, quase casaram com a Miss Brasil, quase aprenderam alemão ou grego, quase receberam o prêmio maior da loteria, quase foram eleitos senador.

Afinal, o Senhor Quase, quase somos todos nós.

O Senhor Quase bebe moderadamente, mas às vezes se embriaga, lembrando que quase foi tudo. Quase também deixou de fumar.

O Senhor Quase escreve, e tem um romance na gaveta, quase terminado. Uma obra que se chegar a concluir, será uma obra-prima que revolucionará a literatura universal. Ou quase.

É quase católico, porque ainda tem as suas dúvidas.

E de quase em quase, o Senhor Quase vai vivendo, num país que é quase.

 Antonio Carlos Augusto Gama (Quase)

Alento

Acovardada e aprisionada pela violência que grassa, como nunca, no Rio e em Niterói, desisto do prazer de assistir ao Minczuk regendo a OSB em Miguez, Wagner e Mahler, na Cidade das Artes. Sem falar no trânsito daqui até a Barra. Só indo de helicóptero. Ou de véspera.
Concedo-me, então, a livraria aqui pertinho e uma coletânea do Ivan Junqueira, que folheio aleatoriamente, saboreando uma xícara de chocolate mexicano.
O livro é “Essa Música”, o poema, “Cidade”. E meus olhos voltam a brilhar.


“Cidade dos crimes e traições, da violência, do aço das navalhas,

mas também da primeira e ofegante namorada
que escorregava sinuosa entre os meus braços,
como um peixe insubmisso no cárcere do aquário.
Helena chamava-se, e o sol lhe incendiava as tranças douradas,
que escorriam pela nuca e desaguavam nas espáduas,
águas convulsas de uma catarata, espuma irisada
na qual, náufrago, eu subia e descia e me afogava.”