‘Vocês querem bacalhau?’ (Chacrinha, o visionário)

Carlos Prazeres, 41 anos, carioca, em Salvador desde 2011, quando assumiu a regência da Orquestra Sinfônica da Bahia, conta que passou “a se conectar mais fortemente com a sociedade” ao realizar concertos com marchinhas de carnaval e músicas de cinema. Num desses eventos, chegou a sugerir que os músicos se fantasiassem de personagens famosos – ele foi de Clark Kent -, e quando os trompetes atacaram o tema do filme, ele tirou o paletó, jogou os óculos para o público e regeu com a blusa da fantasia.

Conclui sua entrevista a O Globo afirmando que, “se apenas 5% da plateia têm acesso completo e relação mais sentimental com obras clássicas, para que fazer um concerto tradicional, onde fingimos que a plateia entende, e a plateia finge que nós acreditamos que ela entende, e tudo não passa de um jogo de fingimento?”.

Se bem captei, definitivamente o Brasil fez uma opção pela mediocridade, fruto de um populismo pernicioso e sem volta. Não seria melhor, ao invés do circo, aprimorar o pão, cuidar da Educação e da Cultura Musical, nas escolas, desde a mais tenra idade?

Rio de Sempre

Rio de Sempre e o Ferreirinha

Quando ainda criança, começando nas letras, sentado na varanda com meu avô, ouvia atentamente histórias que selecionava de uma Revista muito conhecida na época, Seleções Reader’s Digest, e uma das suas seções, a preferida de meu avô, era o “Meu tipo inesquecível”. Vovô gostava muito e eu também. E ontem, quando conversava com um velho amigo, vejo o Ferreirinha. Uma pessoa inesquecível.

– Serginho, sabe de uma coisa? Toda vez que vejo o Ferreirinha acho que viver vale a pena.

– Paulinho, semana passada fez noventinha, 9 ponto 0. Aconteceu uma festa surpresa.

– Como você soube? Teve uma festa surpresa para quem lembrou? Não entendi! Só convidaram  quem telefonou ou mandou e-mail?

– Nada disso. Você conhece o Ferreirinha. Deixou um aviso lá no Bar dos Amigos, no Horto.

“Amigos, ao lerem este aviso, lembrem: no dia 8 de abril faço 90 anos e vou comemorar aqui. Ferreirinha ”

O bar encheu. Até quem não conhecia apareceu. Duas moças levaram bolo. Uma outra, um tremendo prato de brigadeiro, e ainda pintou uma bandeja de casadinho. Foi o maior sucesso. O legal é que dos doces, ele só comeu o bolo, assim mesmo um deles. Do outro pulou fora. Fiquei sabendo que a moça é meio ligada a essas cartomantes de poste e poderia estar fazendo algum trabalho. “O casadinho, então, nem pensar, podiam entender errado”, comentou comigo no dia seguinte. Um detalhe, bebeu muito.

Ferreirinha sempre bebeu. Com moderação, mas constante. Faz tempo, bebemos junto aqui no Jóia. Estava com problemas existenciais. Enquanto eu tomava meu traçado, ele foi de batida de limão com gotas de Steinhager. O pior é que fiquei freguês dessa mistura.

– É uma peça. Só o chamo de Orfeu. Um cara que veio ao mundo para nos dar luz e cura.

– Luz e cura?

– É a etimologia de Orfeu. Aquele que veio curar pela luz. E só olhar e ver seu brilho e disponibilidade para com o outro.

– Por isso chega assim aos 90. A única coisa que o diferencia de Orfeu é que nunca encontrou sua Eurídice.

– Pode não ter encontrado, mas está sempre acompanhado e bem. Tem um tremendo borogodó.

– Engraçado, não tem o perfil de boêmio. É verdade que nunca gostou de trabalhar. Foi engenheiro da prefeitura e descobriu que contestando o chefe ia ser colocado de lado. E assim fez. Os chefes não gostam de contestadores. Assinava o ponto e se mandava para casa. Entrou para a Prefeitura por concurso. Nunca ia ser demitido. Uma vez, pintou um chefe que conhecia suas histórias, e logo o foi promovendo. Não queria confusão. É meu eleitor no Clube de Engenharia e me garante meia dúzia de votos.

– Escrever, ler,  ouvir suas músicas e conversar é seu barato. Tem uma coleção de jazz de fazer inveja, reconhecida até no exterior, o que  já lhe rendeu comentário em uma revista novaiorquina especializada.

Não me diga. Nunca comentou isso com ninguém. Seu  grande barato é ser do tipo moita. Quando alguém descobre algo dele, se abre, explica tudo. Mas falar de si espontaneamente, nem pensar. É um colecionador: selos, cachaças e uísque.

– Estou aqui pensando: esse perfil ‘moita’ não é muito comum entre os cariocas e ele é um carioca. Ele convive com tudo que a cidade oferece: chorinho, samba, praia, cerveja, mulher, esquina, sandália de dedo, jogar conversa fora. É eclético, nunca vi o Ferreirinha de meia. Cara, me lembro dele no Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura. Fui assistir a uma peça chamada “A mais-valia vai acabar, seu Edgar”, do Vianinha. Era o bilheteiro e, no meio da peça, ele me aparece vestido de mosqueteiro, falando aos berros: “Sou o Mosqueteiro do Rei!” E nada mais.

– Estamos aqui falando do Ferreirinha e fico lembrando das poucas vezes que estive com ele. Um síndico aqui perto resolveu fazer um churrasco para ver se ganhava votos no condomínio. Tomou conta da festa. Levou uma garrafa de Havana, a cachaça mais cara que conhecemos, e não ficou por aí, contou uma história da cachaça. “Nos anos da ditadura, um major foi no alambique e mandou o dono mudar o nome da cachaça. Não deu certo, o cara preferiu parar com a fabricação a mudar o nome. Um dia, o general mandou o seu ordenança comprar uma Havana no alambique e soube da notícia. Estava fechado. O general ficou bravo. Mudou o major de região militar e a cachaça voltou a circular”. Essas e outras histórias fazem parte de seu arsenal de causos. É um contador de história. Alguém tinha de recolher essas histórias do Ferreirinha e colocar num livro…

– Você já viu o Ferreirinha na feira? Fica atrás da barraca de vender frango com sua galera. Fazem um churrasquinho de asa de frango e rola a maior cervejada. De vez em quando dou uma passada lá. Minha mulher não gosta muito. Acabo comprando de mais ou de menos.

–  Você acha que se uma Eurídice pintasse na sua vida, seria o mesmo?

– Cara, quando a Belquize morreu, percebi uma certa tristeza no seu semblante. Você sabe como foi o luto?

– Não faço a menor ideia.

– Colocou um mastro na sua janela e pendurou sua cueca a “meio mastro”.

– Desse jeito passa dos 100.

Rio de Sempre presta carinhosa homenagem a um morador do nosso Jardim Botânico. Um Orfeu que viaja dentro da sua solidão. Uma pessoa inesquecível. Colecionador de amigos.

Paulinho Lima

De desapegos

O lirismo de Carpinejar até na separação (et pour cause)… 
O consagrado poeta pai, Carlos, não escreveria mais lindamente.

oOo

Arte de Paul Klee

POR QUE NÃO POSSO LHE ESQUECER?

Nenhuma perda é rasa para mim. Todas são profundas. A lembrança da antiga companhia leva, inclusive, o meu modo de olhar. Meu modo poético de olhar o mundo.

Esquecer é uma crueldade que sou inapto para praticar. Absolutamente incompetente.

Não sei me despedir, não sei me desapegar.

Há mentalidades diferentes – e apenas diferentes, nem melhores, nem piores -, unidimensionais no relacionamento, em que um vaso é um vaso, uma vassoura é uma vassoura, objetos geram funções e não significados emocionais.

Estes perfis pouco sentimentais e práticos se separam fácil. Não sofrem com a linguagem criada no amor, não adoecem no dialeto. Felicidade é estar rindo, tristeza é estar chorando, sono é bocejar, raiva é gritar. E se separar é apenas não dar certo.

Não corresponde ao meu exemplo. A simplicidade é reverência. Sofro com o que vi em segredo, com o que memorizei sem nenhum sentido a não ser o de amar alguém.

Potencializo a observação como forma de conhecer o outro. Minha memória é feita toda de saudade. A falta vem de uma realidade microscópica e lírica guardada nos hábitos. Minha memória está repleta de símbolos criados ao longo da convivência. Dentro da felicidade, da tristeza, do sono e da raiva, existem ninharias importantíssimas, que não me deixam ir embora.

Os sentimentos não expressam conceitos que servem para qualquer história. Terminam particularizados ao máximo para tornar aquela história única e irreversível.

Não observarei mais um pão francês impunemente, pois ela tirava o miolo antes de comer. Não sentarei no banco preto da cozinha do mesmo jeito, mirante onde se debruçava para ouvir música e fumar perto da janela. Os chinelos não são mais chinelos, mas um encosto para a porta não bater com o vento. A carteira não é o lugar em que guardo cartões e dinheiro, mas onde conservo o nosso primeiro ingresso de cinema. Arrumar a cama é lembrar que ela não gostava de ficar com os pés sufocados, é nunca mais prender o lençol no colchão. Pegar uma escova é segurar o ensinamento entre os dedos de que uma mulher prefere o carinho na nuca do que na raiz dos cabelos.

Eu me doutorei numa pessoa. Eu me diplomei na coreografia mínima de minha amada. Durante anos, o que fiz foi estudá-la. Eu me especializei, ironicamente, em quem não está mais comigo.

Onde pôr a herança? Não há como aproveitar a escolaridade ou realizar equivalência de cadeiras com uma nova paixão.

Não tem como apagar o conhecimento com a distância repentina. Ela já é parte de mim. Ela já se misturou ao meu temperamento.

A poesia é um problema para quem se afasta daquela que ama.

Glorifiquei informações inúteis, consagrei conhecimentos irrelevantes. Tudo era essencial para desfrutar com ênfase de sua presença.

Decorava seus gestos, mesmo não sendo necessário.

Se não ponho nada fora, não é porque não quero, é porque não posso. Teria que me arrancar os olhos.

 Fabrício Carpinejar, em 23/4/15

Possível trilha, Carpinejar?

Roberto Menescal: “Minha Menina do Rio é Nara Leão”

Do simpático blog da Anna Ramalho:

 

Tanta coisa pra lembrar de Roberto Menescal… Logo de cara a academia onde ele dava aulas de violão pra faturar algum, muito mocinho ainda, e que ficava numa vila na Rua Dias da Rocha, em Copacabana, quase ao lado do prédio onde eu morava. Naquela época, ainda uma garota, nem sabia dele e de Wanda Sá e de Carlinhos Lyra, que também davam aulas ali. Só mais tarde fui ligar os fatos. Era a vila da Lidinha, até então a mais famosa de toda a história. Roberto Menescal, autor de tantas e tão belas canções, muitas delas com letra deRonaldo Bôscoli, começou fazendo história com O Barquinho e seu “dia de luz, festa do sol” que até hoje faz o maior sucesso. Pergunta pra qualquer japonês antenado. No Japão, Menescal manda. Ele, Wanda Sá, Joyce estão sempre na terra do sol nascente mostrando a nossa música, a nossa bossa nova que fez História. Durante muitos anos produtor musical da Polygram, ele deixou cargo logo que soube da irreversível doença de sua grande amiga Nara Leão, apenas para acompanhá-la em turnês mundo afora. Voltou a ser apenas músico por causa de Nara. Músico e cultivador de bromélias em sua casa na Barra. É um ser muito especial esse Roberto Menescal. Vamos conferir o seu Rio.

A cara do Rio
Bossa Nova

A imagem do Rio
Corcovado

O que me faz falta no Rio
Mais amor e mais educação

Rio antigo
O Arpoador dos anos 60

Rio de hoje
Prainha

Rio do futuro
?

Não podia ter acabado
O Canecão

Tem que ter
Alegria e gentileza

A comida do Rio
Feijoada

A bebida do Rio
Caipirinha

O seu restaurante no Rio
O Quinta, em Vargem Grande

O seu bar no Rio
Na minha casa com meus amigos

E quando chove no Rio?
É a glória para a floresta que emoldura o Rio

A música do Rio
Garota de Ipanema

Escola de samba
Carnaval? Tô fora!

Time de futebol
Apesar de tudo, Flamengo

Menino do Rio
Arduino Colassanti

Menina do Rio
Nara Leão

Um (a) carioca que deixou saudade
Sem dúvidas, Tom Jobim

Dia HH

Em 21 de abril de 1930 nascia Hilda Hilst. Poetíssima Hilda.

“e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida.”

“Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de poeta.”

AMAVISSE

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst
(1930-2004)