Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro

Argumentar com quem não quer argumentar é uma experiência desgastante e infrutífera. A única estratégia eficaz em um caso desses é calar a boca e deixar o outro pensar que estamos lhe dando razão. Que mais pode-se fazer quando nosso interlocutor deixa evidente que o negócio dele é negar o inegável e fazer afirmações estapafúrdias com raciocínios dignos de um muar? Ao silenciarmos, resolvemos o problema sem abalarmos nosso sistema nervoso, e o outro que vá caçar batráquios em um brejo de sua preferência.

Roberto Pellegrino

Da arte da conversa fiada

Há a conversa fiada, a conversa afiada e a conversa desconfiada. Mais ainda: há também a conversa a crédito. Suponho que o leitor, como eu, prefira a conversa fiada, já que a conversa afiada é para os intelectuais, que nós não somos, e a conversa a crédito está cobrando juros muito altos.

A conversa fiada é também chamada de bate-papo. Papudos não somos (ou somos?), mas bater papo, seja numa esquina, seja num boteco, é muito deleitoso.

No entanto, há algumas regras a serem observadas para a arte da conversa fiada, e estou disposto a ensiná-las aos meus catecúmenos. De começo, digo que a conversa fiada não tem hora, pode ser de dia, ou de madrugada. Sentados ou de pé, ou encostados numa parede, eu digo uma coisa e você responde outra completamente diferente. Não devemos dizer coisa com coisa, na conversa fiada. Falo eu: “A Lua hoje é quarto-minguante”, e você responde “os girassóis são heliotrópicos”. De qualquer maneira, concordaremos sempre se passa na rua uma mulher boa. O pior é que ela é boa para o marido dela, ou amante, mas não é boa para nós. Você então pergunta à boa: “A senhora está perdida?”, ao que ela retruca, indignada: “Perdida é a sua mãe, indecente”. Não tem nada demais em ser perdida, ou perdido, afinal a gente acaba sempre se achando. Em seguida, você diz: “Perdido por perdido, truco”. E eu revido: “Não vem com conversa, que eu trago a travessa”.

Arte da conversa fiada é sempre boa, com dois, três ou quatro interlocutores. Mais de quatro, ela degenera. De quatro, todos ficam de quatro e pastam. Não há conversa fiada numa multidão ululante.

Um dos conversadores diz: “Amanhã será outro dia”. Outro descompleta: “Dia vai, dia vem, e eu sem vintém”. Passa então o guarda-noturno e apita. Você diz que ele apita em sol maior, e ouve de outro que não, que o guarda-noturno apita em fá-sustenido. O terceiro acrescenta: “Se eu tivesse aqui um cavaquinho, descavacava”. Há em seguida acordo e desacordo sobre qual o instrumento melhor, o cavaquinho ou o violão. Digo: “Eu, por mim, prefiro a sanfona”, e você se lembra das camisas sanfonadas. As camisas sanfonadas sanfonavam? Aí, um explica que as camisas sanfonadas tocavam as marchinhas de Carnaval. Mais um: “Você se lembra da Linda Batista?” “Ela já morreu”, fala outro. Contesta um terceiro: “Não, senhor, ela ainda está viva, li ontem num jornal”. Discutimos então se os jornais dizem a verdade, ou mentem sempre. Sustento que eles mentem sempre. “Foi Pôncio Pilatos que perguntou a Cristo o que era a verdade”, diz mais um. “E que mania tinha o Pôncio de lavar as mãos…”, observa outro conversador. Mais um: “Seria de louça ou de prata a bacia dele?” “Acho que ele lavava as mãos com sabonete Gessy”. Recordamos todos, aí, do sabonete “Vale quanto Pesa”.

A conversa prossegue, e um gato atravessa a rua. Um de nós pergunta: “Você sabe que os gatos brasileiros são muito apreciados nos Estados Unidos?” “O gato faz sapato?” Por falar em sapato, olho os saltos cambaios dos meus sapatos, e lembro que preciso comprar outro par de sapatos novos. Um borzeguim também servia.

Já são duas horas da madrugada, e um de nós pergunta: “Sabem de uma coisa?” Todos respondem: “Não, não sei”.

Afinal, tanto faz como tanto fez saber uma coisa. O saber não ocupa lugar. Se ocupasse, será que pagaria aluguel?

“Vamos embora”, convida um dos conversadores.

“Para onde, visconde?”

Ficamos, e o papo fiado continua.

 Annibal Augusto Gama

Almost

Os versos – amo! – de Didn’t we e a própria história de vida de Jimmy Webb quase o tornam um Senhor Quase…

This time we almost made our poem rhyme, didn’t we girl?
This time we almost made that long hard climb…

Gama, olhe o que nos envia mestre Romane!!! Tema: Almost.

O Senhor Quase

Tenho conhecido muitos Senhores Quase.

O Senhor Quase está em todas as profissões e em todos os lugares. Ou quase.

São essas pessoas que quase escalaram o Everest, quase ganharam o campeonato mundial de bocha, quase atravessaram a nado o Canal da Mancha, quase pescaram um peixe de duzentos quilos, quase se formaram em Medicina, quase se tornaram sacerdotes, quase casaram com a Miss Brasil, quase aprenderam alemão ou grego, quase receberam o prêmio maior da loteria, quase foram eleitos senador.

Afinal, o Senhor Quase, quase somos todos nós.

O Senhor Quase bebe moderadamente, mas às vezes se embriaga, lembrando que quase foi tudo. Quase também deixou de fumar.

O Senhor Quase escreve, e tem um romance na gaveta, quase terminado. Uma obra que se chegar a concluir, será uma obra-prima que revolucionará a literatura universal. Ou quase.

É quase católico, porque ainda tem as suas dúvidas.

E de quase em quase, o Senhor Quase vai vivendo, num país que é quase.

 Antonio Carlos Augusto Gama (Quase)

Alento

Acovardada e aprisionada pela violência que grassa, como nunca, no Rio e em Niterói, desisto do prazer de assistir ao Minczuk regendo a OSB em Miguez, Wagner e Mahler, na Cidade das Artes. Sem falar no trânsito daqui até a Barra. Só indo de helicóptero. Ou de véspera.
Concedo-me, então, a livraria aqui pertinho e uma coletânea do Ivan Junqueira, que folheio aleatoriamente, saboreando uma xícara de chocolate mexicano.
O livro é “Essa Música”, o poema, “Cidade”. E meus olhos voltam a brilhar.


“Cidade dos crimes e traições, da violência, do aço das navalhas,

mas também da primeira e ofegante namorada
que escorregava sinuosa entre os meus braços,
como um peixe insubmisso no cárcere do aquário.
Helena chamava-se, e o sol lhe incendiava as tranças douradas,
que escorriam pela nuca e desaguavam nas espáduas,
águas convulsas de uma catarata, espuma irisada
na qual, náufrago, eu subia e descia e me afogava.”

Rio de Sempre

Em plena Copa do Mundo de 2010, no blog Sobre Isso e Aquilo, da querida Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, nosso Paulinho batia bola com Galeano e outros craques. Olho no lance, amigos.

Rio de Sempre entra em clima de Copa e conversa com um hermano

Esse hermano se chama Eduardo Galeano, uruguaio, chegando aos 70’s. Conhece a América Latina como ninguém. Ouviu histórias da nossa gente e recontou em seus livros. Não guardou para si.

Quando se separou de sua primeira mulher, disse: “Só quero levar meus quadros, livros e discos…”. Descobriu que era só o que tinha.

Nasceu em 3 de setembro de 1940, em Montevidéu, no seio de uma família católica e de classe média. Na infância, Galeano tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol. Tal desejo é retratado em algumas de suas obras, como ‘O Futebol ao Sol e à Sombra’. Na adolescência, Galeano trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco.

Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960, como editor do ‘Marcha’, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti, este um dos maiores poetas da América Latina. Em 1971 escreveu sua obra-prima ‘As veias abertas da América Latina’. Em princípios de 2007, Galeano caiu seriamente doente, mas recuperou-se, após uma bem-sucedida cirurgia em Montevidéu.

Entre suas principais obras, destaco (para meu gosto):

Crónicas Latinoamericanas; Vagamundo; La Canción de Nosotros; Días y Noches de Amor y de Guerra; Voces de Nuestro Tiempo; O Livro dos Abraços; Nós Dizemos Não; Amares; Las Palabras Andantes; O Futebol ao Sol e à Sombra; Mulheres; Bocas del Tiempo. Espelhos, uma quase história universal, o único que ainda não li.

Galeano é um amante do futebol e neste período de Copa do Mundo peço licença para contar algumas de suas histórias sobre futebol.

Foi em 1958, na Itália. A seleção do Brasil jogava contra o Fiorentina, a caminho do Mundial da Suécia.

Garrincha invadiu a área, deixou um beque sentado e se livrou de outro. Quando já tinha enganado até o goleiro, descobriu que havia um jogador na linha do gol. Garrincha fez que sim, fez que não, fez de conta que chutava no ângulo e o pobre coitado bateu com o nariz no trave. Então, o arqueiro tornou a incomodar. Garrincha meteu-lhe a bola entre as pernas e entrou no arco.

Depois, com a bola debaixo do braço, voltou lentamente ao campo. Caminhava olhando para o chão, um Chaplin em câmera lenta, como que pedindo desculpas por aquele gol que levantara a cidade de Florença inteira.

No final dos anos sessenta, o poeta Jorge Enrique Adoum voltou ao Equador, depois de longa ausência. Nem bem chegou, cumpriu o ritual obrigatório da cidade de Quito: foi ao estádio ver jogar o time do Aucas. Era uma partida importante, e o estádio estava repleto.

Antes do início, fez-se um minuto de silêncio pela mãe do juiz, morta na véspera. Todos se levantaram, todos calaram. Em seguida, um dirigente pronunciou um discurso destacando a atitude do esportista exemplar que ia apitar a partida, cumprindo com seu dever em tão tristes circunstâncias. No meio do campo, cabisbaixo, o homem de preto recebeu o denso aplauso do público. Adoum piscou, beliscou um braço: não podia acreditar. Em que país estava? As coisas tinham mudado muito. Antes, as pessoas só se ocupavam do árbitro para gritar ‘filho da puta’.

E começou a partida. Aos quinze minutos, explodiu o estádio: gol do Aucas. Mas o árbitro anulou o gol por impedimento. Imediatamente a multidão recordou a finada autora de seus dias:

‘Órfão da puta!’ – rugiram as arquibancadas.

Em 1916, no primeiro campeonato sul-americano, o Uruguai goleou o Chile por 4X0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação da partida “porque o Uruguai escalou dois africanos”. Eram os jogadores Isabelino Gradin e Juan Delgado.

Bisneto de escravos, Gradin tinha nascido em Montevidéu. As pessoas se levantavam quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e, sem se deter, evitava os adversários e arrematava na corrida. Tinha cara de santo e quando fazia cara de mau, ninguém acreditava.

Juan Delgado, também bisneto de escravo, havia nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava nos carnavais fazendo a bola dançar nos gramados. Enquanto jogava, conversava e gozava os adversários:

‘Larga esse cacho!’ – dizia, levantando a bola. E lançando-a, dizia:
‘Sai fora, que lá vai areia!’

O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na seleção nacional.

Em 1993, a maré do racismo subia. Já dava para sentir na Europa inteira o cheiro da peste, como um pesadelo que volta, enquanto aconteciam alguns crimes e eram promulgadas algumas leis contra os imigrantes dos países que tinham sido colônias. Muitos jovens brancos não conseguiram trabalho e as pessoas de pele escura pagavam o pato.

Naquele ano, uma equipe da França ganhou, pela primeira vez, a Copa Europeia. O gol da vitória foi obra de Basile Boli, um africano da Costa do Marfim, que cabeceou um escanteio cobrado por outro africano, Abedi Pelé, nascido em Gana. Ao mesmo tempo, nem os mais cegos militantes da supremacia branca podiam negar que os melhores jogadores da Holanda continuavam sendo os veteranos Ruud Gullit e Frank Rijkaard, filhos de homens de pele escura vindos do Suriname, e que o africano Eusébio tinha sido o melhor de Portugal.

Ruud Gullit, chamado de Tulipa Negra, foi sempre um atuante inimigo do racismo. Entre uma partida e outra cantou, de guitarra na mão, em vários concertos organizados contra o apartheid na África do Sul, e, em 1987, quando foi eleito o jogador que mais se destacou na Europa, dedicou sua bola de ouro a Nelson Mandela, que há muitos anos estava encerrado numa prisão pelo crime de acreditar que os negros são pessoas.

Gullit teve o joelho operado três vezes. Nas três vezes, os jornalistas o consideravam liquidado. Mas ressuscitou, de pura vontade.

‘Eu, sem jogar, sou como um recém-nascido sem chupeta.’

Suas pernas velozes, goleadoras, e seu físico imponente coroado por uma melena de tranças rastafári, conquistaram o fervor popular nas equipes mais poderosas da Holanda e da Itália. Por sua vez, Gullit nunca se dera bem com técnicos nem com dirigentes, por seu costume de desobedecer, e também por sua obstinada mania de denunciar a cultura do dinheiro, que está transformando o futebol em assunto de Bolsa de Valores.

Em 1919, o Brasil venceu o Uruguai por 1X0 e se sagrou campeão sul-americano. O povo se lançou às ruas do Rio de Janeiro. Presidia os festejos, levantada como um estandarte, uma barrenta chuteira, com um cartazinho que proclamava “O glorioso pé de Friedenreich”. No dia seguinte, aquela chuteira que tinha feito o gol da vitória foi parar na vitrine de uma joalheria, no centro da cidade.

Arthur Friedenreich, filho de um alemão e de uma lavadeira negra, jogou na primeira divisão durante vinte e seis anos, e nunca recebeu um centavo. Ninguém fez mais gols do que ele na história do futebol. Fez mais gol que o outro artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador profissional. Friedenreich somou 1329 gols. Pelé, 1279.

Esse mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses (ele ou o diabo que se metia pela planta de seu pé). Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto à fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro, o que é brasileiro de verdade, não tem ângulos retos. São como as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.

Rio de Sempre, aproveitando a onda da Copa Africana, fala de uma série de jogadores negros que transformaram o futebol em arte.

O escritor Galeano, um apaixonado por futebol, soube como ninguém fazer desse esporte um momento de prazer e graça.

Encerro deixando com meus amigos três pensamentos do nosso cronista e poeta Galeano, um belo hermano:

“Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: ‘Proibido cantar’. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: ‘É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem’. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.”

“Quando as palavras não são tão dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar.”

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Paulinho Lima

Referências: ‘Futebol ao Sol e à Sombra’, Editora L@PM, 1995.

Notas de sites diversos sobre Eduardo Galeano.

Sem palavras

Saudade de Pellebertinho, gente…

Só existe um modo de expressarmos o que sentimos: com palavras, faladas ou escritas. Mas elas não conseguem transmitir com exatidão o que vai em nosso íntimo. Sentir é muito mais profundo que dizer, por maior que seja nossa capacidade de comunicar. Palavras são simulacros da verdade, representações aproximadas das emoções, que, inefáveis, escapam a toda tentativa de serem traduzidas.

Roberto Pellegrino